Uma campanha “QuitGPT” está incentivando as pessoas a cancelarem suas assinaturas do ChatGPT

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QuitGPT: A Crescente Onda de Boicote ao ChatGPT por Questões Éticas e Desempenho

A inteligência artificial tem se tornado uma ferramenta indispensável para milhões de usuários em diversas áreas, com o ChatGPT da OpenAI liderando o cenário global. No entanto, um movimento organizado, denominado “QuitGPT”, tem ganhado força, incentivando o cancelamento de assinaturas do serviço. Impulsionada por uma combinação de frustrações com o desempenho do chatbot e preocupações éticas e políticas ligadas à OpenAI, a campanha sinaliza uma crescente insatisfação que transcende a mera funcionalidade tecnológica. Este artigo explora as raízes e o impacto desse boicote, que desafia o status quo das grandes empresas de IA.

A Raiz do Descontentamento: Entre o Desempenho e a Postura Política

O movimento QuitGPT não surgiu do nada. Ele é o resultado de uma confluência de fatores que levaram usuários, antes satisfeitos, a reconsiderar seu apoio ao ChatGPT. A experiência de Alfred Stephen, um desenvolvedor de software freelancer em Singapura, exemplifica bem essa transição. Inicialmente, Stephen assinou o ChatGPT Plus, um serviço pago que promete acesso a modelos mais avançados por US$ 20 mensais, com o objetivo de otimizar seu trabalho. Contudo, a ferramenta não correspondeu às suas expectativas, especialmente em tarefas de programação, e suas respostas foram frequentemente consideradas excessivamente prolixas e redundantes.

Essa frustração com a performance técnica do chatbot, que muitos sentem ter diminuído com os modelos mais recentes como o GPT-5.2 (possivelmente uma referência ao GPT-4o ou uma versão similar mencionada de forma imprecisa no contexto original), foi exacerbada pela descoberta de questões políticas. Stephen, como muitos outros usuários, deparou-se com informações sobre uma substancial doação do presidente da OpenAI, Greg Brockman, ao comitê de ação política (super PAC) do ex-presidente Donald Trump, a MAGA Inc. Além disso, a campanha QuitGPT destacou que o Departamento de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) utiliza uma ferramenta de triagem de currículos baseada no ChatGPT-4, agência que tem sido alvo de controvérsias e críticas políticas recentes. Para Stephen, essas revelações representaram “a gota d’água”, culminando no cancelamento de sua assinatura e em uma mensagem clara à OpenAI: “Não apoiar o regime fascista”, em resposta a uma pesquisa de satisfação.

QuitGPT Ganha Tração: De Postagens no Reddit a uma Campanha de Grande Alcance

A campanha QuitGPT rapidamente transcendeu as frustrações individuais, transformando-se em um movimento coordenado e visível. Nos últimos tempos, fóruns como o Reddit foram inundados com relatos de usuários abandonando o ChatGPT. Além das queixas sobre o desempenho e a “bajulação” nas respostas do chatbot, o movimento se manifesta em ações simbólicas, como a organização de uma “Mass Cancellation Party” em São Francisco. Essa iniciativa, um contraponto irônico ao “funeral” do GPT-4o sugerido por um funcionário da OpenAI para satirizar a preocupação dos usuários com a aposentadoria do modelo, sublinha a intensidade do descontentamento.

Embora o número exato de cancelamentos ainda não seja claro, a campanha tem demonstrado uma notável capacidade de mobilização. Uma postagem recente da campanha no Instagram, por exemplo, superou 36 milhões de visualizações e acumulou mais de 1,3 milhão de curtidas, evidenciando o alcance massivo da mensagem. Os organizadores do QuitGPT afirmam que mais de 17.000 pessoas já se inscreveram no site da campanha, indicando seu engajamento em cancelar assinaturas, comprometer-se a parar de usar o ChatGPT ou divulgar a iniciativa nas redes sociais.

Sociólogos como Dana Fisher, da American University, observam que a pressão do consumidor, através do uso do “dinheiro para expressar opiniões políticas”, pode ser uma alavanca poderosa para mudar o comportamento corporativo, desde que atinja uma “massa crítica”. A visibilidade e o engajamento do QuitGPT sugerem que essa massa crítica pode estar se formando, pressionando a OpenAI e, por extensão, toda a indústria de inteligência artificial.

Quem Está por Trás do Movimento e Quais São os Seus Objetivos?

O movimento QuitGPT é articulado por um grupo diverso de ativistas e jovens adultos de esquerda, espalhados pelos Estados Unidos. Incluindo defensores da democracia, organizadores climáticos, profissionais de tecnologia e “ciberlibertários”, muitos desses indivíduos possuem vasta experiência em campanhas de base. A inspiração para o boicote veio, em parte, de um vídeo viral de Scott Galloway, professor de marketing da Universidade de Nova York e apresentador do podcast The Prof G Pod. Galloway argumentou que a forma mais eficaz de impactar o ICE seria por meio do cancelamento de assinaturas do ChatGPT, esperando que uma redução na base de assinantes da OpenAI pudesse reverberar no mercado financeiro e pressionar indiretamente figuras políticas como Trump.

Um organizador do QuitGPT, que preferiu manter o anonimato por receio de retaliações da OpenAI, destacou que o objetivo é “causar um barulho grande o suficiente para que todas as empresas da indústria de Inteligência Artificial pensem se conseguirão sair impunes ao viabilizar Trump, o ICE e o autoritarismo”. Ele enfatiza que, embora a OpenAI seja o alvo inicial, a campanha visa um impacto muito mais amplo, questionando o entrelaçamento da tecnologia com o poder político e as agências governamentais controversas. Simon Rosenblum-Larson, um organizador trabalhista em Wisconsin que atua na regulamentação de data centers, reforça que o movimento busca “retirar os pilares de apoio do governo Trump”, que dependem do suporte e dos recursos de bilionários da tecnologia.

Os Detalhes da Controvérsia: Doações Políticas e Ferramentas Governamentais

As alegações que sustentam o QuitGPT são baseadas em informações publicamente disponíveis. O site da campanha aponta para relatórios de financiamento eleitoral que revelam doações substanciais de Greg Brockman e sua esposa, totalizando US$ 25 milhões (US$ 12,5 milhões cada) para a MAGA Inc. Esse montante representa quase um quarto dos aproximadamente US$ 102 milhões arrecadados pelo super PAC no segundo semestre de um ano recente, sublinhando a significativa contribuição financeira.

A informação de que o ICE utiliza uma ferramenta de triagem de currículos alimentada pelo ChatGPT-4 foi obtida de um inventário de inteligência artificial publicado pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA, em janeiro. Esses dados concretos servem como base para a argumentação do QuitGPT, transformando o descontentamento abstrato em um protesto com fundamentos específicos e verificáveis.

Conclusão: O Poder do Consumidor na Era da IA

A campanha QuitGPT representa um marco importante na intersecção entre tecnologia, ética e política. O movimento demonstra que os usuários estão cada vez mais atentos não apenas à funcionalidade dos produtos de inteligência artificial, mas também às implicações éticas e ao alinhamento político das empresas que os desenvolvem. A capacidade de mobilização do QuitGPT, evidenciada por sua ampla repercussão nas redes sociais e o engajamento de milhares de usuários, sublinha o crescente poder do consumidor em moldar o comportamento corporativo.

À medida que a inteligência artificial se torna mais integrada em todos os aspectos da sociedade, movimentos como o QuitGPT servem como um lembrete de que as empresas de tecnologia não operam em um vácuo. Elas são constantemente avaliadas por seus usuários, não apenas pela inovação que entregam, mas também pelos valores que representam e pelas decisões que tomam. O futuro da relação entre o público e as gigantes da IA pode depender cada vez mais da transparência, da responsabilidade social e da percepção de alinhamento ético.

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